Gente de Verdade
o que vale mais: mil espécies de plantas e animais ou mil hectares de soja?
As linhas vermelhas urucum formavam cordões e os cordões, colares. Os colares juntos formavam o título
Paiter Suruí
significa “gente de verdade". Abro meu celular e mostro pra Joás a última alteração que fiz na página do laboratório de criatividade há mais de um mês: na capa a inscrição “gente de verdade". Me sinto pessoalmente espiritualmente sincronicamente convidada a entrar nas escritas em vermelho protesto daquele povo que conhece essa terra antes de ser “este país".
Sete de Setembro é o nome de batismo pra homologação desse território dos “gente de verdade”, que ironicamente recebe o nome do dia em que o país Brasil se torna independente, mas batiza a perda da independência do povo originário, como comenta Txai Suruí num vídeo registrado pelo coletivo Lakapoy.
“antes de ontem sonhei que me perguntavam, num estrangeiro, se eu tinha ascendência indígena", eu disse
meus bordados protesto se confundiam nas as linhas vermelhas das veias enchentes de rubis pedras preciosas com o urucum da chácara e os figurinos e as cobras que nonna fazia pra brincarmos de indígenas como se num chamado de conexão às origens da terra imigrada, minha casa.
“passamos de carro pelo meio desse povoado pra chegar em Rondônia", ele dizia
21/09
vai começar a primavera, vai ter um eclipse, vai ter manifestação, vai ter um novo começo.
22/09
Pensei uma coisa poética. Começou a chover ontem depois da manifestação
Hoje: alerta de tempestade. Fazia tempo que não chovia
Depois da chuva fui pra aula.
Ando pela avenida grande em São Paulo mas algo diferente: uma procissão de pessoas na calçada por onde sempre caminho só… e também e no meio fio. Alguns filmavam a quantidade de gente na rua
Reparei os ônibus parados, enfileirados, vazios, onde deviam estar movendo
Muitas árvores grandes e antigas caíram com a chuva de hoje e bloqueavam avenidas
Pensei na natureza em manifesto. Atrapalhando o ritmo da cidade
A mesma cidade que por lucro derruba árvores e florestas
Era como se as árvores fizessem seu próprio protesto
E a seiva não era vermelha, mas também parecia sangue
E os trabalhadores laranjas invisíveis em trabalho extra
Um clima estranho quando chego na aula, muitas faltas, menos energia do professor, dos alunos
Apesar de uma vitória ontem, o dia já começa em luta e olhos fundos
uns crentes poderiam dizer: a natureza está comunicando que eram errados e rebeldes os protestos
mas eu sinto: A natureza aguarda, com grande expectativa, a manifestação dos filhos de Deus. Rm 8:19
que? já existiu um protesto suicida?
“China: funcionários da Foxconn ameaçam suicídio em massa” (O Globo)
“daí em 2012 teve esse protesto que não chegou a se concretizar, graças a Deus"
Mas eu vi as árvores como se fossem uma extensão dos homens que enxergam o futuro com mais clareza do que na matéria da carne e essas, sim, se lançaram ao chão em manifesto.
Domingo protestamos contra o entreguismo, contra a entrega das nossas terras, das origens, da riqueza natural que luta pra se manter em vez de lutar pra se multiplicar. Se ganhamos uma luta pra preservar a diversidade, o ganho ainda é mais luta, a próxima luta, em vez de vitória. Vitória será quando a multiplicidade da natureza tiver liberdade pra coexistir e co-criar com o humano, mas enquanto o homem acreditar que lucro é gado, que mil espécies são menos que mil hectares de soja, as árvores ainda se arremessarão sobre os carros dos ricos e dos trabalhadores vitimados.
Arte é rejeição da ignorância.
Ignoro a ignorância que ignora quem é feito invisível
e a ignorância é conservadora - conserva uma visão dualista e limitada do mundo






